Acho
Sou seu, às vezes
Às vezes sou certo.
Me dou a um só devaneio
E se ouso ser fácil:
É pra você que me atiro no fim da festa.
(B. Muniz)

Terceiro olho
... O café amargo que me transformei
E que sutilmente se uniu a minha vida sem açúcar.
Ando a escutar as mesmas vozes
As músicas de sempre
Fumando cigarro para matar o tempo
E me sentido cada dia mais pelo avesso.
Queria mesmo era me esconder dento de mim
(Encontrar a árvore)
Desativar de vez a reação as coisas
Sentar-me no cais e molhar meus pés com todo o silêncio do lugar.
“Smiths’’ por algum motivo
De copo em copo acaba-se a noite
Smiths, o som de um quarto fechado.
Alguém que não vi
O prazer de não ter prazer algum.
Passos na casa apagada,
A água fria do chuveiro
O rosto de uma garota morta
Viva, num canto feio da memória.
Faço sexo com o desejo triste da solidão
Como uma maquina
Uma peça no lugar errado.
Estou ouvindo smiths.
Sim, estou sozinho
Smiths por alguém que não vi
Smiths por algum motivo.
Eu não imagino o que você pensa
Não tenho tanta certeza
Se te beijo ou estupro.
Víbora,
Lamentações,
Sua esclerose múltipla.
smiths sem alguém
Sem tua boca molhada,
Sem cigarro depois do sexo;
smiths e Paulo leminsky:
“na noite enorme
-tudo dorme
Menos teu nome. ’’ (Bruno Muniz)
(assista ao video how soon is now)


AZUL
Aqueles pretos olhos
Porto de porcelana
E os fios cortantes do cabelo ao rosto,
Quando sentido na minha pele excitada:
A pele tocada era entorpecente.
Aquele olhar doente e estranho
Cheios de becos mal iluminados,
De casas apagadas
E camas vazias.
Desejos que procuram os seus olhos.
Não me atrai o corpo
E sim o mundo submerso por essas águas de carvão.
Um olhar obscuro é de certa forma,
Uma presença indireta.
Como olhos cerrados,
Dia que termina,
Quarto apagado ou noite sem estrela.
Eram os olhos mais sem vida
A água que talvez
Fizesse-me molhar o rosto apenas
O fluido surreal cheio de maldades
Mas que goza e se revela numa flor de cor azul.
(Terei lembranças que você nunca saberá)

Essa tragédia descrita em pergaminhos
Esse destroço consignado na porta da alma
Eleva em luzes, senhor do silêncio
E acolhe o pranto dos náufragos.
Degenerando o regenerado
Descrevendo o passo do descrente
Lamentando por bocas que te obedecem
E sendo, por direito, o meu olhar atravessado.
Eu não quero saber de nada
Foda-se!
Você e sua personalidade
Seus problemas não são os meus
Eu. Sou. O meu problema.
Lua virada por toda a estrada
Minha estadia é feita de não submeter-me a hostis
O crespo e sedoso encaixe desses olhos
Ceda-me de fluidos que roubas na falta de roupas.



O CACHIMBO DA PAZ, IMITANDO LONGFELLOW
I
E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
O Poderoso, veio à planície florida,
Ao prado imenso rente ao cerro montanhoso,
E ali, sobre as escarpas da Rubra Pedreira,
O espaço dominado e ardendo à luz primeira,
Eis que se ergueu, onipotente e vigoroso.
E convocou então os povos incontáveis,
Mais do que as ervas e as areias infindáveis.
Com sua mão tremenda uma laca arrancou
À rocha, e fez com ela um cachimbo disforme;
Depois, junto ao regato, num bambual enorme,
Para servir de tubo, um caniço apanhou.
Para enchê-lo tomou um bálsamo oloroso;
E, criador da Energia, o Todo-Poderoso,
De pé. Eis que acendeu, qual divino fanal,
O Cachimbo da Paz. De pé sobre a Pedreira,
Fumou, soberbo e ereto, ardendo à luz primeira.
E para as tribos esse era o grande sinal.
E em círculos subia a fumaça sagrada
No ar doce da manhã, sensual e perfumada.
E agora o que se via era um sombrio véu;
Logo o vapor se fez mais azulado e intenso,
Depois branqueou, sempre engrossando no ar suspenso,
Para extinguir-se aos pés da abóbada do céu.
Dos distantes confins das montanhas Rochosas,
Desde os lagos do Norte às ondas impetuosas,
De Tawasentha, a várzea amena e sem igual,
A Tuscaloosa, erma floresta trescalante,
Avisou-se o sinal e a fumaça ondulante
Lentamente a subir no incêndio matinal.
Os Profetas diziam: "Vedes essa estria
De vapores, que, igual ao braço que chefia,
Oscila e se recorta em negro no ar vermelho?
É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Que proclama por toda a planície florida:
Guerreiros meus, eu vos convoco ao real conselho!"
Pelas sendas do rio ou pelo ermo poeirento,
Pelas quatro vertentes de onde sopra o vento,
Vós, fiéis guerreiros, vós das tribos em porfia,
Entendendo o sinal da nuvem caminheira,
Viestes dóceis até junto à Rubra Pedreira
Onde sempre Gitchi Manitou vos ouvia.
Os guerreiros de pé se erguiam na paisagem,
Armas na mão, a face impávida e selvagem,
Matizados tal como uma folha outonal;
O ódio que à luta impele a todos os mortais,
O ódio que ardia nos olhares ancestrais
No olhar lhes acendia uma lama fatal.
Em seus olhos brilhava a maldição da guerra.
E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Terra,
Tinha por eles uma infinda compaixão,
Como um pai extremoso, indisposto às disputas,
Que vê seus filhos a morder-se em árduas lutas.
Tal Gitchi Manitou por toda uma nação.
E ergueu sobre eles sua forte mão direita
Para dobrar-lhes a alma e a natureza estreita,
Para esfriar-lhe a febre à sombra dessa mão;
Depois lhes disse, a voz solene e majestosa,
Comparável à voz de uma água tormentosa,
Que tomba e ecoa mais hedionda que um trovão:
II
"Minha posteridade, odiosa mais querida!
Ó filhos meus, ouvi a divina razão!
É Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Quem vos fala! O que em vossa planície florida
Pôs a rena, o castor, a raposa e o bisão.
Eu vos tornei a caça e a pesca generosas;
Por que se fez então o caçador tão vil?
De pássaros povoei as várzeas mais lodosas;
Por que não sois felizes, crianças belicosas?
Por que ao vizinho o homem dá caça e faz-se hostil?
Bem longe estou de vossa arena de inimigos.
Promessas e orações de vós não ouço mais!
Domina vosso gênio o amor pelos perigos,
E vossa força está na união. Quais bons amigos
Vivei, pois, e aprendei a vos manter em paz.
Um Profeta virá de minha mão em breve
Para vos dar conforto e convosco sofrer,
E seu verbo fará a existência mais leve;
Mas se a menosprezá-lo algum de vós se atreve,
Tereis então, filhos malditos, que morrer!
Às ondas apagai a cor dos ódios vãos.
O caniço é abundante e a rocha não se esfaz;
Cada um pode entalhar o seu cachimbo. Às mãos
Limpai o sangue! Agora vivei como irmãos,
E unidos, pois, fumais o Cachimbo da Paz!"
III
E eles então, depondo as armas sobre a terra,
Lavam nas águas as brutais cores da guerra
Que às frontes lhes ardiam triunfantes e cruéis.
Cada um faz seu cachimbo e às margens do regato
Colhe um longo caniço e dá-lhe o corte exato.
E o Espírito sorria ante os seus filhos fiéis.
Todos se foram, a alma quieta e enternecida,
E Gitchi Manitou, o Grão-Mestre da Vida,
Uma vez mais galgou a escada celestial.
- Através do vapor que em nuvens se desdobra
Ergueu-se o Poderoso, ébrio de sua obra,
Sublime, perfumado, infinito, triunfal!
(Charles Baudelaire)